sábado, 18 de julho de 2015

* Sobre coleções de carrinhos e sonhos.


Dia desses eu resolvi fazer uma faxina no quarto do Vitor. Essas coisas que vez ou outra temos que fazer e ficamos protelando, mais chega um dia que tudo tem que acontecer.
Separei as roupas que ele já não usa, afinal, com 8 anos recém completados, meu pequeno usa roupas tamanho 10 ou 12. Depois fui arrumar o baú de brinquedos e essa arrumação demorou bastante, pois cada brinquedinho que eu pegava eu ficava vagando nos pensamentos e lembrando das histórias por trás de cada um.
Tem aqueles brinquedos que ele nunca se interessou em brincar. E tem todos aqueles carrinhos que estão sempre enfeitando todos os cantos da minha casa, pois onde o Vitor para, ele sempre deixa pelo menos um carrinho pra "marcar território".
Minha casa é inteiramente decorada de carrinhos e trenzinhos todos amassados ou quebrados de tanto participarem das brincadeiras do Vitor. 
Olhando aquele tanto de carrinho com as rodas quebradas, fica parecendo que eles participaram de um ritual de aceitação, onde pra fazer parte do baú de brinquedos, eles tem que aceitarem ser destruídos.
A sequência de destruição é sempre a mesma: Primeiro são arrancadas as rodas traseiras, depois de bem amassados e com a pintura gasta eles participam exaustivamente das brincadeiras, seguindo o ritual, eles "passeiam" por todos os cantos toda a minha casa até que eu veja tantos carrinhos espalhados e grite: - Vitor! Pare de quebrar seus carrinhos e guarda eles no lugar certo!
Então acontece o último passo, o Vitor recolhe todos os seus carrinhos espalhados pela casa e joga todos embaixo do guarda-roupas, de onde eles só saem com o auxílio de um cabo de vassoura em um dia de faxina. Acho que ele joga os carrinhos lá embaixo para que eu não os pegue e jogue fora. Não é  abandono, é zêlo.
Muitos carrinhos, apesar de parecerem legais, permanecem intocáveis dentro do baú. Estão novinhos, com todas as rodas e pintura intacta. Esses também não participam das brincadeiras solitárias do Vitor e nem enfeitam minha casa, e eu sei lá por que motivo, meu filho opta por se divertir com os carrinhos menos belos, deixando esse bonitinhos no baú, onde aos poucos, vão sendo retirados para participarem do "ritual". 
Dessa vez, foram separados 60 carrinhos. Eu os retirei pois do jeito que estão podem acabar machucando  alguém. Fiquei olhando cada um deles e de alguns eu conseguia lembrar de quando eram novinhos, ou das inúmeras vezes que encontrei com eles nos lugares mais inusitados. 
O fato é que eu não consegui me desfazer de nenhum deles. Cada um tem uma história, cada um deixou meu filho mais feliz e vê-los assim, todos juntos me deixa ao mesmo tempo angustiada e feliz.
E mais uma vez aprendi com meu filho, como seria melhor esse mundo se todos fizessem como ele, se interessassem pelos "menos belos", pelos "mais estragadinhos". Para o Vitor aqueles carrinhos detonados tem valor, são tratados com carinho e trazem alegria, e acima de tudo, merecem proteção.
Juntei tudinho em uma sacola, guardei com todo amor, como quem guarda algo valioso e acho que jamais vou me desfazer dessa minha coleção de sonhos fantasiados de carrinhos quebrados.

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